Raindrop: Pagan Poetry

Pecados

by on Nov.12, 2008, under Textos

Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele vale à muito tempo atrás. Desde então o relógio havia se esquecido de marcar as horas. E o inverno se esquecera de ceder lugar à primavera.

Porém a antiga catedral ainda ocupava, como fora desde o início dos tempos, o mesmo lugar, suas duas torres saindo da neve como lanças negras desafiando a natureza. A única resposta que esta lhe dava era lançar lufadas gélidas adentro da janela, uma boca de vidro afiado como presas mas que jamais cortaram carne alguma: nenhum animal sobrevivera ao longo período glacial para se aventurar ali. As noites e dias passavam silenciosamente, exceto por alguns raros uivos dos lobos que habitavam as montanhas ao norte.

O vento descia, incerto e turbulento, sem pisar nos degraus úmidos da escadaria, logo se perdendo na escuridão. As paredes ainda suportavam as tochas, agora apagadas, colocadas ali para que os visitantes não tropeçassem ao subirem a escadaria espiralada. A medida que o ar penetrava mais e mais nas entranhas, mais hesitava em continuar o caminho. Ao finalmente passar por um vão e chegar a um dos salões, parecia se estagnar como um estrangeiro que contempla, parte horrorizado e parte estupefato, o calabouço em que passará o resto de seus dias – se não mais que isso.

De fato o ar estava condenado a ficar preso ali, por inúmeras eras, junto à poeira milenar que dava uma aparência aveludada ao mármore sem vida do chão. Em dias a muito perdidos aquela sala servira como biblioteca e Loja do templo. Agora os preciosos volumes descansavam sobre as prateleiras de mogno como ossos descansavam em seus túmulos. As páginas de volumes originais, escritas a mão, haviam a muito perdido a flexibilidade e prontamente se reduziriam a pó se tocadas indevidamente, se juntando à poeira do ambiente.

Ali, ao contrário da superfície, ainda abrigava alguns traços de vida: Uma viúva-negra repousava sobre os delicados mas mortais fios de seda. A aranha era a senhora absoluta do lugar, e a ampulheta vermelha era um aviso que o veneno não demoraria a transformar qualquer um preso na teia, que cobria toda a saída para os corredores, na próxima refeição do minúsculo aracnídeo. Como que para reforçar isto, os ossos de algum pequeno mamífero – provavelmente um insignificante rato – se empilhavam em um dos cantos da teia.

O ar do corredor parecia ser de outra espécie que seu parente do outro lado, pois parecia carregar o peso dos anos que existira. O ar da biblioteca era ainda jovem e, mesmo estagnado, não era denso como o do corredor. Quantas pessoas já o haviam respirado? Quantas vezes já não preenchera os pulmões que entoavam canções de adoração, e quantas vezes não chicoteara cordas vocais que oscilavam pela agonia da tortura?

Inúmeras portas, fechadas por alguma força sobrenatural, permeavam as paredes espaçadas caoticamente – ao menos assim pareceriam ao olhar de todos que se aventurassem em chegar ali. Mas na mente tortuosa do arquiteto todas aquelas entradas eram distribuídas harmoniosamente seguindo alguma lógica já esquecida. Mesmo seladas as portas pareciam deixar transbordar espectros de seus conteúdos, e o ar parecia se encher de lamentações, gritos, choros e gemidos. Mas as sensações – que existiam mesmo sem alguém para senti-las – desapareciam com a mesma eterealidade com que surgiam. Poucos presenciaram as sensações durante toda a existência da construção e, dentro destes poucos, menos ainda viveram posteriormente – um erro que lhes custara a sanidade.

As vezes o corredor era iluminado por uma pequena lanterna azul, que guiava os incautos pelas profundezas, sem que percebessem que se perdiam em um imenso labirinto, em que o caminho se ramificava como alvéolos pulmonares. Então a luz se dissipava, deixando as confusas pessoas à mercê de suas próprias inseguranças, fatalmente fazendo o papel de minotauro. Mesmo agora uma adaga cuja lâmina lembrava uma serpente descansava sobre uma mancha de um vermelho quase negro, certamente sangue que escolhera o piso como novo lar, tendo sido expulso do corpo em que nascera contra sua vontade.

Neste ponto peço desculpas ao leitor, mas como autor releio o período anterior e vejo um interessante duplo sentido: fora expulso contra sua vontade ou nascera contra sua vontade e por isso fora expulso? Como narrador onisciente apenas posso afirmar que não sei. Mas voltemos agora à caminhar junto ao vento, que não espera como o tempo e que apaga maldosamente as tochas, deixando os viajantes sem enxergarem nada mais a não ser seus próprios interiores.

Os passos do ar seguem, passando por mais inúmeros caminhos escuros. Ele mesmo se perderia naquela vastidão se não conseguisse se expandir preenchendo todos os locais que não eram selados.

Mesmo o emaranhado de corredores tinha um princípio – que pera o ar vindo da superfície era o fim: a nave principal, em que, quando fora construída, eram celebradas as missas e centenas de fiéis se reuniam. Mal sabiam do grande ódio que foram alimentando, suas orações corrompendo o coração aos poucos. As vozes que convidavam o sagrado aos poucos seduziram os anjos e os empossaram como demônios. Os enormes vitrais agora recobriam, em cacos, o chão e não mais as laterais. Pelos vãos agora abertos um pouco da neve invadia o salão.

Mas até mesmo a neve que soterrara a construção e aniquilara toda vida do vale não se atrevia a invadir o lugar. Não haviam mais bancos, e os retratos da via sacra haviam sido substituídos por quadros de vários instrumentos de tortura em funcionamento, pintados de forma doentiamente fiel. Certamente o artista tinha predileção pela dama de ferro, que fora meticulosamente esquematizada. As imagens dos santos não mais repousavam sobre seus pedestais, que agora suportavam esculturas feitas com a carne e ossos dos antigos fiéis. Apesar do grande retrato de carnificina, o ar não tinha o fedor de matéria morta: uma suave fragrância de lótus eternamente perfumava o local. No altar, dois incensos queimavam sem pressa. Dois pequenos rios de líquido, um de coloração rubro-claro e o outro de um vinho escuro, desciam acompanhando as laterais e ambos desaguavam em um pequeno lago no centro do lugar.

Um cálice quebrou o silêncio ao ser mergulhado no líquido. Uma mão pálida o segurava, os dedos finos parecendo mais frágeis que a peça de cristal. Em um movimento sutil levou o recipiente até próximo ao nariz e provou o cheiro com a mesma habilidade que a língua provaria o líquido. Este tingiu os lábios do homem, fazendo com que contrastassem fortemente com a pele imaculadamente branca. Os longos cílios negros pareciam ainda maiores devido ao fato das pálpebras estarem cerradas, não para proteger os olhos, pois eram finas e transparentes de mais para bloquear a luz, mas para que ele pudesse concentrar seus sentidos no líquido que agora lhe inundava a boca. Ainda saboreou longamente a mistura antes de, com um pouco de arrependimento, engoli-la.

“Não pense que não o percebi entrar. Na verdade senti sua presença a muito, muito tempo.” O homem atirou estas palavras ao vento, literalmente. Cada pequeno fio do escasso pêlo em seu corpo havia percebido a suave vibração do ar à sua volta. “Visitas, você diz? Não, nada seria tolo ao ponto de entrar aqui, ainda que houvesse algo para tentar. Não pense que sou ingênuo para acreditar nisto!” Com isso, o homem novamente aproximou o cálice de sua boca. Porém, subitamente, a mão fraquejou e a peça deslizou de sua mão, indo partir-se em milhares de pequenos cacos ao atingir o chão.

“Surpreso em me ver?” A voz suave de uma mulher indagou e, sem a resposta, continuou: “Nada mudou aqui, exceto que está mais empoeirado. E a neve não costumava passar de alguns centímetros.” A mulher se aproximou e pegou um pedaço da taça quebrada. “E vejo também que continua sem cuidado. Alguém poderia se cortar com os estilhaços.” Thanatos sentiu o vidro tocar sua garganta e, involuntariamente, prendeu a respiração. O vidro gelado encostado em seu pescoço o surpreendera a princípio, e agora lançava um turbilhão de sensações em sua corrente sanguínea, a medida que o fragmento afiado era pressionado contra sua frágil pele, fazendo surgir um tímido filete de sangue.

Ele ainda não olhara para a mulher, mas sabia exatamente quem era. Somente uma pessoa sabia chegar até aquela sala, e ainda ser capaz de surpreendê-lo. Ele não esperava que entrasse ali, e ele se viu perdendo o controle de seus batimentos cardíacos. Seus pensamentos se aceleravam à mediada que o vidro abria a pequena fenda em seu pescoço vulnerável.

O sangue escorria pela peça transparente, indo se acumular em uma das extremidades. A voz sussurrou ao lado de seu ouvido, não somente enviando o som como uma corrente elétrica por seu corpo: “Não seria bom deixar seu sangue se desperdiçar caindo no chão como seu vinho, não acha?” A peça vítrea subitamente deixou seu pescoço, e ele virou-se lentamente, abrindo os olhos, e pela primeira vez viu Millenia, que agora estava deslizando o vidro sobre sua própria língua, saboreando o sangue com os olhos fechados, quase em transe.

As vestes negras contrastavam com o branco-neve de sua pele e o vermelho-carmim de seus sedutores lábios entre-abertos. Os longos cabelos lhe cobriam metade da face, sendo apenas distinguíveis do vestido por terem o brilho de uma pérola negra. Com a cabeça levemente abaixada e, agora com as pálpebras levantadas, os olhos fixos em um ponto dentro de seu próprio corpo, Millenia aparentava mais ser uma boneca de porcelana que uma pessoa. O vestido, cuja fronte era elaboradamente bordada e laços de cetim negro unindo o tecido, ainda reforçava mais essa semelhança. A saia longa escondia completamente as pernas e provavelmente seria por si só a inveja de todas em um baile medieval, com suas dobras precisas e textura aveludada.

As mãos seguravam o pequeno estilhaço como se fosse um pequeno pedaço de ouro, e apenas depois do vidro estar completamente limpo que vieram repousar, uma sobrepondo a outra, no centro de seu peito, pouco acima dos seios. Os lábios ligeiramente curvados para cima, e deliberadamente cobertos por uma fina camada de sangue, deixavam clara a satisfação dela.

“Não sei o que dizer,” balbuciou Thanatos, “e não vou tentar esconder minha…” Parou por um instante e levou a mão direita até o corte no pescoço, molhando a ponta do indicador com sangue. Olhou o dedo e continuou, “… minha alegria.”

O sorriso se tornou ainda mais nítido, pois Millenia esperava essa reação. E ela sabia que Thanatos sabia o que ela esperava.

“Não adiantaria tentar escondê-la – senti o gosto dela em seu sangue. Quanto a não saber o que falar… Apenas me beije”

Os ponteiros do relógio mais uma vez paravam, e o momento em que os lábios se encontrariam parecia não querer chegar. Porém ao se tocarem lentamente, iniciaram uma cadeia de sentimentos furiosa como uma onda quebrando nos recifes. Os lábios se alternavam entre prenderem uns aos outros, e as línguas timidamente se tocavam. Aos poucos foram ousando mais, e as mãos seguravam os corpos juntos nos passos iniciais da dança proibida da paixão.

A boca dele descia pelo pescoço lentamente, beijando suavemente, lambendo, alternando algumas mordidas e ocasionalmente sugando a pele de Millenia, e ocasionalmente atingiu os seios, que contornou deixando que a língua deslizasse.

Millenia,já com respiração ofegante, não conseguiu conter um gemido de prazer quando Thanatos tomou em sua boca o mamilo enrijecido, sugando-o como se fosse dali sair seu alimento, ao mesmo tempo em que tomava entre dois dedos o mamilo do outro seio.

Ele a deitou sobre o altar e continuou a estimular alternadamente os seios à medida que direcionava a mão ao abdômen da mulher, e, sem esperar que ela recobrasse os sentidos, tocou no ponto mais sensível dela sobre o pano fino da saia, desta vez extraindo um gemido muito mais alto que os anteriores. Continuou a toca-la até que sentiu a umidade através do tecido, e então, sem mais conseguir se conter, tirou a boca dos seios e o obstáculo das roupas dela.

Posicionando a cabeça entre as pernas, começou a lambe-la e sugar o vinho lascivo, movendo a língua em círculos em volta do clitóris, tocando a parte superior e inferior alternadamente. Enquanto fazia isso olhava para o rosto da mulher, vendo a excitação que escapava dos olhos fechados e lábios entreabertos.

Atrás das pálpebras fechadas passavam milhares de imagens misturadas. Como desejara sentir novamente aquele cheiro, beber daquela fonte proibida, sentir o calor infernal daquele corpo novamente junto ao seu. Mas, ao mesmo tempo ainda conseguia sentir o corte gelado da lâmina em suas costas, e a ferida parecia abrir-se novamente agora que estava lá.

Sentiu um de seus dedos molharem-se ao tocá-la, e sua mente viajava junto aos gemidos. Olhou para baixo, vendo seus dedos sumirem naquela peça proibida e ressurgirem, brilhantes. Como ela se atrevia, depois de tudo. Como ainda tinha coragem de tentar domá-lo, e como ele se sentia tentado à se entregar naquela hora. Admirava-se, sinceramente, com a mulher. Mas ela era tola.

Com um movimento rápido, aproveitando a distração de Millenia, Thanatos a puxou do altar e arremessou-a ao chão. O corpo nu se projetou em direção aos pequenos rios e rolou, graciosamente, ao tocar o piso. Ele sorriu enquanto ela levantava, observando o corpo arrepiar-se, e caminhou lentamente até ela.

“Ousado. Inesperado. Você melhorou.” Foi o que a mulher disse. Pouco depois de ter jogado as palavras no ar sentiu sua garganta ser esmagada e seu corpo suspenso, o mundo ameaçando apagar-se à seu redor. Consciente, porém, sentiu os lábios novamente alcançarem os seus. Levou suas próprias mãos ao pescoço instintivamente, lutando em vão para permitirem que enchesse seus pulmões de ar.

Suspensa à sua frente Millenia parecia completamente indefesa, porém ele sabia que aquela aparência era cuidadosamente cultivada pela mulher. Empurrando-a contra uma parede e mantendo uma das mãos no pescoço, olhou tomado de luxúria aquele corpo. Diminui um pouco a força que aplicava, tomando cuidado para que ela não desmaiasse, e ao mesmo tempo deslizou um dedo pelos lábios, pescoços, seios e barriga, sentindo a pele macia.

“Não. Eu não melhorei. Você, por outro lado, me subestimou.” Largou a mulher, que caiu de joelhos inspirando profundamente. Ele então caminhou até suas costas e a abraçou pelas costas, levantando-a novamente e virando-a em direção à parede. Suas mãos agora acariciavam o pescoço, e logo passou a beijá-la.

O cheiro dos cabelos o embriagavam e por pouco conseguia manter a resolução de permanecer no controle da situação. Beijava os ombros da mulher, que não oferecia qualquer resistência, e acariciava os cabelos do homem, puxando o rosto contra seu corpo. Quando sentiu a boca se dirigir às costas, inclinou-se para frente, apoiando o rosto na parede. Nesse momento sentiu suas mãos serem atadas, e um arrepio subiu-lhe pelo corpo.

“Acha que cordas vão me prender?”

“As cordas são apenas uma desculpa para soltá-la. Isso sim será a parte interessante. Mas aproveite o momento”, disse Thanatos agora aproximando a boca da parte interna das coxas. “Ajoelhe-se.”

Millenia obedeceu, pressionando o pélvis contra o rosto do homem. Sentia a língua penetrar-lhe umedecendo seu interior ainda mais, e moveu seu corpo de forma a ampliar as sensações. Estava acostumada a sempre estar no controle, e naquele momento se sentiu excitada com a situação diferente. O corpo começava a suar à medida que pressionava-se contra a língua e os dedos do homem sob ela. Quando começava a sentir seus músculos se contraírem ouvia o homem ordenar que parasse, para então recomeçar lentamente.

Thanatos brincava com ela deliberadamente, saboreando cada segundo como se fosse o último. Sentia o interior macio com seus dedos, e movimentava-os propositalmente tocando nos pontos mais sensíveis e obtendo como resposta gemidos cada vez mais altos. Sentiu novamente uma contração, e dessa vez acelerou mais ainda os dedos, fazendo com que Millenia gritasse ao mesmo tempo em que inundava sua boca. Em seguida saiu daquela posição, levantando-se enquanto a mulher continuava ajoelhada, ofegante.

“Estou apenas começando, Millenia”. Foi até uma das paredes e retirou uma grande faca decorativa de um suporte. Passou o dedo úmido pelo fio, misturando o gozo com seu próprio sangue, satisfeito. Ao virar encontrou a moça já de pé, observando-o desafiadoramente com as mãos amarradas atrás das costas.

“Agora você terá a chance de cortar as cordas. Não me decepcione muito”. Com isso ele avançou em direção à mulher, mirando a faca na altura de seu ombro. Millenia desviou do golpe com facilidade, como se já houvesse ensaiado aqueles movimentos várias vezes. Thanatos, porém, puxou seu cabelo e a trouxe para perto, colocando a lâmina à altura do pescoço e deixando com que deslizasse pela pele rosada da mesma forma que ela havia feito com o caco de vidro pouco antes.

Sentindo a lâmina fria, Millenia segurou a respiração. Sentiu o metal ser pressionado contra seu peito, arranhando-o porém não chegando a cortá-lo. Ao sentir o instrumento deixar seu corpo ela imediatamente jogou seu corpo para trás, contra o dele. O movimento súbito o pegou de surpresa e lhe tirou o equilíbrio, fazendo com que caísse para trás e largasse a faca.

Millenia segurou-a e tentou cortar a corda, porém as mãos presas a atrapalhavam. Recuperando-se, Thanatos derrubou a faca com um forte golpe e chutou-a para longe. “Muito devagar”, disse e ao mesmo tempo puxou uma corrente que pendia do teto. A mulher tentou correr até a faca, porém sentiu os elos gélidos agarrarem seu pescoço. Voltou-se para Thanatos.

“Não tenha pressa, Millenia, estamos começando a nos divertir agora. Venha.”

“Vai se arrepender quando estiver em minhas mãos” disse ela, aproximando-se com um sorriso e vendo-o retirar a roupa negra. Beijou a barriga do homem e acariciou com a lateral da face suas pernas. Tomou-o então em sua boca, engolindo-o por inteiro enquanto cravava as unhas no próprio corpo.

Thanatos sentia a língua tocar-lhe e estremecia, puxando ainda mais a corrente que prendia Millenia pelo pescoço. Sentia cada vez mais o prazer crescer, sentindo-se o senhor absoluto daquele momento. Estrangulava-a aos poucos, forçando com que ela o tomasse cada vez mais profundamente em sua boca, por vezes sufocando-a e tendo que deixar que recuasse e tragasse um bocado de ar. Olhou para ela: ajoelhada, passando a língua por seu pênis e tocando-se como conseguia com as mãos atadas, novamente excitada. Soltou a corrente.

Mesmo liberta Millenia não parou. Sem poder usar as mãos movia vigorosamente a cabeça e logo sentiu que o homem começava a estremecer e gemer. Já esperava o gozo quando este surgiu, e deixou propositalmente um pouco sujasse seu rosto e tomou o restante em sua boca, degustando-o como vinho.

Aproveitando o momento seguinte, vendo que Thanatos ainda não havia se recuperado, Millenia correu até a faca. Thanatos não tentou impedi-la, mesmo vendo que cortava as amarras.

Millenia jogou as cordas cortadas no chão, e retirou a corrente que envolvia seu pescoço. Levou uma mão até ele, sentindo o fino corte, observou os pulsos avermelhados e a lâmina ainda ligeiramente tingida pelo sangue e gozo. Em seguida seus olhos alcançaram os de Thanatos.

Os dois se encaravam, menos de um braço de distãncia separando os olhares ardentes. Millenia agiu primeiro, tentando acertar Thanatos com a faca. O gesto porém foi inútil, e Thanatos conseguiu segurar o braço antes que a lâmina o atingisse. Porém Millenia não cedeu. Colocava toda sua força no braço, conseguindo visualizar a ponta rasgando a pele do homem.

Thanatos por sua vez segurava os braços de Millenia e, movendo ligeiramente seu corpo para o lado, retirou-se da linha da arma e soltou a mulher, que quase caiu para frente, desequilibrada. Haveria caído, se não houvesse sido segurada por ele. Mas ela não deixaria que isso mudasse as coisas: assim que recuperou o equilíbrio investiu novamente contra ele, dessa vez mirando o peito. Thanatos desviou mais uma vez e, enquanto Millenia se recuperava, puxou a mulher para junto de si.

Ali estavam os dois, rostos a alguns dedos de distância, faca levantada tocando o queixo de Thanatos, que sorria. A faca caiu. As bocas se encontraram. Dessa vez, nenhum dos dois estava no controle.

Os corpos, já nus, foram juntos ao chão, rolando enquanto cada um dos dois tentava ficar por cima e controlar o ritmo dos beijos. Passaram pelos rios de vinho e seus corpos se enrubesceram com a bebida. Os dois beijavam-se desesperadamente, mordendo mutuamente os lábios e deixando com que as línguas se encontrassem dentro e fora das bocas. Eram uma pessoa só, unidos pelo desejo do momento.

Millenia sentia o calor de Thanatos a invadindo, e tentava ainda mais sugá-lo para si mesma. O suor, saliva e gozo dos dois se misturavam. Thanatos sentia o conforto e o calor reconfortante da mulher, acolhendo-o e gritando desesperadamente por mais. Ele também gritava por mais.

A mulher deitou, puxando-o com ambas as pernas e braços, engolindo-o de todas as formas possíveis e deixando também que seus lábios e seios fossem engolidos pelos lábios e mãos dele. Ele, por sua vez, puxou-a para cima de si, acompanhando os movimentos dela com seus próprios, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Ambos levantaram-se, jogando-se contra paredes e apoiando-se no altar enquanto sentiam seus corpos tornarem-se um.

A faca, esquecida no chão, era a única testemunha daquele momento, que durou até nenhum dos dois ter mais forças para permanecerem de pé e desabarem, juntos e abraçados, ao chão.

E, pela primeira vez, dormiram juntos embalados pelos seus pecados.

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